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  31/07/2008
FUTEBOL, TRAUMA DE INFÂNCIA
Por Cristiana Soares / Por que Heloísa?


Meu avô fumava Alfa e ouvia futebol no radinho de pilha. Meus tios também. Aos domingos. Criança também tem depressão, sabia? E naquela época não tinha remédio bom para os nervos que nem tem hoje.

Domingo, sofrimento arrastado, com trilha de radinho mal sintonizado.

Flamenguista a vida toda, meu avô virou a casaca. América. Até hoje eu não entendi o motivo. Mas aprendi o hino: “Hei de torcer, torcer, torcer. Hei de torcer até morrer, morrer, morrer...”

E meu avô morreu. Torcendo. Sem me dizer o porquê da troca de camisa. Desconfio que foi pela predileção que tinha pelo filho caçula, meu padrinho Lico.

Tio Lico, americano, e tio Denga, flamenguista, ganharam umas três ou quatro vezes na loteria esportiva. Junto com zilhões de outras pessoas, o que era motivo de chacota na família.

Filipetas da loteria voavam como leves penas a granel no quintal do meu avô. Eu e meu irmão íamos catando uma a uma. Era divertido preencher as colunas. Mas aí chegava a noite de domingo. Aquela zebrinha do Fantástico lá. Com aquela boquinha patética e aquela voz ridícula. A depressão chegava em seu cume. Era morrer ou dormir.

Eu ia pra cama. Pois havia a promessa de uma segunda-feira por vir. E o que era dia ruim para os adultos, era a minha salvação. Nem tudo acabava em futebol. Havia as segundas.

Esse ritual acompanhou toda a minha infância. E talvez explique meu trauma de futebol. Mas por que só comigo? Por que com meus primos não? Por que eles continuam a ouvir, a ver, a torcer e a discutir futebol até hoje? A explicação pode estar em uma alteração maligna no gene masculino.

Mas há mulheres que amam futebol. É verdade. Conheci uma, certa vez. Aliás, minha melhor amiga no colegial. A Luciane era Fluminense. Era não, ainda é (melhor cuidar, caso a reencontre). Fluminense doente, como se diz entre os torcedores.

Enquanto eu e outras meninas éramos doentes pelos rapazes e nos apaixonávamos pelos professores, Luciana desenhava o escudo tricolor nos seus cadernos. Escrevia repetidamente palavras como “Flusão”, “Nense” e frases: “Eu amo o tricolor” etc.

Luciane gostava de meninos. Mas, assim como os homens, priorizava o futebol. Casou, teve filho, separou. E continua fiel ao Fluminense, até que a morte os separe.

Vê como eu odeio mesmo futebol? Minha melhor amiga do colégio era fanática, o homem com quem eu queria casar, Chico Buarque, também. E olha a coincidência: Chico também é tricolor. Se eu gostasse de futebol, até teria um time já escolhido.

Hoje, tenho amigos de todos os times. Eu os aceito como são, com seus genes futebolísticos, com os times que escolheram.

Pois se assim não fizesse, morreria não de depressão, mas de solidão. Sem energia masculina à minha volta, eu não vivo. Então uma coisa compensa a outra. Sinto saudades do meu vô e seu radinho de pilha.


*Cristiana Soares é redatora, carioca, mãe de duas meninas e já foi casada com dois flamenguistas (um de cada vez, é claro). Quando alguém pergunta qual é o seu time, ela responde Fluminense para ver se atrai a atenção do Chico. Cristiana é autora do livro Por que Heloísa? pela Cia das Letrinhas e escreve no BlogTalk.



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Cristiane
Que bom ter uma companhia de mulher aqui, além da marina. Adorei o que escreveu. Vou no seu blog conhecer seu livro.
abç da Karlinha


Karla Regina





Procura se fantasia de Chico Buarque para vestir no proximo carnaval

jota jota.joca@hotmail.com





cristina! sensacional o seu texto!!! imaginei cada cena; cada sensação!!! olha, se chico buarque ler... dá casamento, hein? e mais... decore tb o hino do fluminense!!! só que nesse caso, a trilha será de um ipod bem sintonizado!!! rs parabéns!!!


alê zamari alezamari@superig.com.br





"Sou tricolor de coração..."

Cris cristiana.sr@gmail.com





 

... 42 anos de mau humor
e completo desconhecimento
teórico-prático em futebol.
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