| 03/11/2009 ENSINANDO A NÃO PERDER Eles não querem, não sabem e não admitem perder. Em nada. E no futebol, perder-bonito não reconforta, perder-feio e perder-até-as-calças, nem pensar. É ultrajante, fora de cogitação. Não está no script de um jogador ou torcedor (ambos neanderthais que se esqueceram de evoluir), se frustrar com uma bela goleada do time adversário. É axiomático, ninguém nasceu para ser aniquilado, não é mesmo?
Mas existem controvérsias. No contexto educativo de um lar, o pai-torcedor entra numa contradição sui generis e indefensável (palavra que eles acham chique dizer quando tomam gol). Eles até tentam, teoricamente, ensinar a Júnior o que é perder – aliás, Júnior deve ter sido trocado na maternidade, pois é perna-de-pau e vive perdendo campeonato de futebol na escola – sábios, prudentes e sensatos, os pais dizem: “Júnior, meu filho, o que vale é a participação, não tem problema não ganhar sempre, saber perder é um aprendizado que promove a grandeza de espírito, o amiguinho também precisa ganhar de vez em quando”. É tão bonito! Quanta delicadeza, quanta sensibilidade e senso de justiça cabem no coração de um neanderthal. Mas, de repente seu discurso persuasivo é interrompido bruscamente - faz-se mister acrescentar que todo o diálogo com Júnior teve como pano de fundo a TV ligada no jogo de futebol - papai-papudo ouve o gol e vê seu time do coração perdendo e, na maior cara-de-pau, xinga, briga, roga praga, e, se bobear até morre sem o menor pudor, antes de terminar a arenga apelativa com Júnior. A causa é nobre, vale a pena passar como um trator sobre o brilhante sermão a respeito da arte de saber perder. E tudo isso, acontece sem o menor constrangimento, ele nem pensa em assistir a uma final de campeonato entre quatro paredes, sozinho e escondido. Comete tudo isso às claras sem acobertar seu lado vil, é um cara sincero acima de tudo, não esconde seus desvios de conduta. Um torcedor autêntico não considera patológico desejar que o craque adversário quebre a perna, mas se restabeleça rapidamente, caso venha para o seu time do coração. Na sua concepção imbuída de justiça, só os políticos não podem dizer uma coisa e fazer outra. Tudo isso, por quê? Por que perder um gol, chegar em segundo lugar ou perder a mulher pro rival (tudo no mesmo grau de importância, necessariamente nessa ordem), atinge fatalmente seu ponto mais vulnerável, o de se sentir inferiorizado ou rebaixado à série B da vida ou do futebol, tanto faz. Mas Júnior tem que aceitar a lanterninha, ser um exemplo de ser humano e engolir as derrotas com farinha, e sozinho, por que papai está ocupado matutando sobre as desculpas que usará pra abafar a desonra por ter perdido o campeonato. Episódio semelhante acontece aqui em casa quando jogam o tal de futebol de botão. Coisa com a qual nunca me conformei: a quantidade de desprendimento da realidade necessária para sentir emoção com o futebol de botão. Prestem atenção: são apenas botões, são inanimados e nem funcionam com uma bateria. É bola de feltro, botão de camisa, tamanho, peso, caixas de fósforo e feijão pra fazer goleiro. Tudo muito ecológico, politicamente correto, praticamente uma cooperativa de reciclagem, trocando em miúdos, uma incubadora de traças. Coisa linda. Tal qual os adultos neanderthais, os neanderthais-juniores, não podem perder, nem ser contrariados. As regras são escritas, mas só lidas quando convém ao perdedor. O que resulta em discussão, briga, chute em todas as bolas, murro e palavras impublicáveis. É claro que a intervenção da mãe, a pessoa de maior poder de todos os tempos, torna-se imprescindível. A coisa fica séria, não é como no futebol que tem castigo de mentirinha. Mãe não é sensível para coisas de futebol, portanto acaba com a brincadeira sem piedade, se preciso for. Mães não são árbitros, técnicos, nem juiz que apreciam o esporte e deixam por menos para não ficar sem o espetáculo. Mães ensinam num só golpe o que é perder no futebol, perder o futebol e perder os equipamentos do futebol. Quem impôs as regras agora, fui eu. Nada de pecar e pagar castigo com cestas básicas, nada de frescura, nada daquelas regrinhas fru-fru: não pode encostar, não pode gol de perto, não pode por a mãozinha, não pode cair. O negócio é de verdade. Uma regra, um parágrafo, um artigo. Sem exceções, sem perdão. Cada um escolhe dois times e joga sozinho, ele contra ele mesmo. Se alguém tiver dupla personalidade, fica mais emocionante. E não considerem absurdo e desumano, o futebol dos adultos será assim no futuro. Com a diferença que, no dos adultos, só valerá se der empate, senão eles ficam de mal, jogam pedrinha, pauzinho, sprayzinho de pimentinha e sempre colocam a mamãe no meio, não resolvem nada sozinhos. Nunca nos livramos desses pirralhos pirracentos. Mães não fazem vista grossa quando jogador finge que caiu, juiz finge que viu, torcida finge que acreditou. Mães que não gostam de futebol deveriam vestir a cartola, apitar e punir, só assim o futebol entraria nos trilhos. “Quem não sabe fazer, administra”. Comentários Minha linda e mentirosa Marina!!! Duvideodó que você goste de perder, duvido! E como nós neanderthais adultos ou juniores iríamos gostar, perder, ser vice, isso faz um mal à saúde pior do que entrar em grupo de risco e outra coisa quando o Verdão perde é porque foi roubado, ensinei ao meu neanderthal Fabrício,"Meu filho seja palmeirense e desconfie sempre das arbitragens" kkkkkkkkk Beijo vencedor prá ti guria!!! Fãncisco charlesfcardoso@hotmail.com Marina responde Franzzz Não,não gosto e não há quem goste, acredito eu. Disse isso lá no texto já, viu sr Francisco? Mas, diferente de vcs, eu ou nós, pelo menos nao damos esse vexame de consolar o filho na maior falsidade, desmascarada em menos de 2 segundos hahah beeeijo ola Marina....mais um bom texto..futebol e assim mesmo, e eu sei que vc sabe e conhece, pois descorre sobre o assunto tal qual a Glenda koslovisk, futebol nos leva ao extremo da nossa personalidade ,e vc que nao viu minha mae assistindo a um jogo do flamengo. grande abraco josevaldo/london jdcrispim71@gmail.com Marina responde Oeeemmm Josss nao conheço futebol, conheço o jeito neanderthal de ser.. hahah beeeijo Belíssima análise, Marina. Só pra variar... também ainda fico espantado com essas coisas - embora nem devesse. Burrice tão grande que custa a crer que tenha acontecido numa faculdade, mesmo sabendo-se o nível dessas academias. Li ou ouvi em algum lugar sobre a sordidez covarde das responsabilidades divididas. Acho que é por aí. Parabéns, moça. Gerson Nogueira gersonnogueira@gmail.com Marina responde Gerrrçãoomm Nao podemos nos acostumar com isso, temos q continuar nos espantando. É triste demais que tenha acontecido numa faculdade..esse é o movimento estudantil de hj? beeeijo Gerson!Obrigada Ok, Marina, Eu sei que você não quer nem saber de nada disso, mas eu insisto: São 23:48 e o meu Fluminense acaba de fazer 3 x 0 sobre o insuportável time-cera da LDU! Beijos tricolores insistentes! Eliane Marina responde Elianee vixeeee perdeu hein.. e eu já tava quase achando que ia ser chuncho, pq precisar de 4, e já tava no 3?? esquisito.. beeijo Espetáculo de matéria. Irei publicar em meu blog..PARABÉNS www.ligaprudentina.blogpsot.com Glauco Alan glauco51@hotmail.com Marina responde Glauco obrigada pela visita. O link que vc deixou não é de futebol? Entra num site bíblico em inglês... abraço |
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