| 01/12/2011 “DEZ ANOS A MIL OU MIL ANOS A DEZ” OBS:o blog foi invadido e alguns textos e comentários de leitores foram excluídos.
Tenho lido a respeito de acidentes nas pistas e nas ruas. As causas são as mais diversas, irresponsabilidade, inexperiência, fatalidade, excessos. Pilotos e motoristas, matam e morrem. E qual é a diferença, se ambos possuem licença? Que linha tênue separa o acidente provocado com o “consentimento” da legalidade de uma corrida, daquele provocado com o consentimento de pais, por permitirem que filhos inexperientes dirijam seus possantes após as baladas (nem vou citar a bebida alcoólica aqui para não aumentar o assunto)? Sendo o carro uma necessidade que a sociedade nos impôs, jovens certamente usarão, e só assim poderão adquirir a experiência necessária para diminuir os riscos de acidentes. Mas, há necessidade de presentear um adolescente com um carro potente? Esperar que uma criatura de 18 ou 19 anos controle seus impulsos nos momentos de euforia é ser apenas ingênuo ou burro? Deve haver uma explicação fortíssima que justifique um pai colocar em risco a vida do filho, não posso acreditar que seja por capricho ou vaidade. Mas visto por esse ângulo, é um assunto mais voltado para esfera educacional, que vai de falta de limite (não só no limite da velocidade) ao consumismo. Por isso, gostaria de “focar” (do dialeto do futebol: eu tô focado, nós tá focado, eles foca), nas corridas automobilísticas. Se carro é um mal necessário, usá-lo para a prática da corrida como competição não é. Contudo, apesar de ser um entretenimento perigoso, é aprovado pela sociedade, possui regras, equipamentos e recursos que podem prevenir e minimizar possíveis acidentes. Diferente do racha, que é uma prática ilegal (embora na minha concepção leiga, a diferença esteja “apenas” nas questões de responsabilidade, normatização, licenças e local. Tenho tendência a acreditar que o intuito emocional de quem participa de corrida e de “racha”, seja praticamente o mesmo, tendo o último, apenas o fator proibitivo a mais). Não imagino o quão forte deva ser a motivação para que alguém assuma tantos riscos. Nem mesmo juntando os motivos mais óbvios, não fico convencida que “apenas” isso explique: querer ser melhor que todos, chamar atenção, ser admirado, romper limites, demonstrar coragem ou autoafirmação, etc. Incomoda não saber que o sujeito busca, o que é tão extraordinário e importante alcançar, nem que para isso tenha até que morrer ou matar (ainda que seja sem dolo ou “sem querer querendo”). O que o leva a desafiar a vida, qualquer vida, tão radicalmente? E as perguntas que surgem são sempre as mesmas: Se praticar um esporte em que a velocidade ultrapassa os limites da razão, e a possibilidade de morrer é muito grande, por que praticamos? Se fumar faz mal à saúde, por que fumamos? Se ingerir bebida alcoólica é prejudicial à saúde, por que bebemos? Se andar na Montanha Russa é perigoso, por que vamos a esses parques? Se andar pela rua corremos o risco ser atropelados, por que saímos de casa? Coloquei nessa ordem para eliminar pensamentos voltados para a proibição como solução para tudo. Não é possível começar a discussão se nos basearmos apenas nos riscos e na proibição. Estamos carecas de saber que proibir é quase o mesmo que dizer “faça escondido”. “Rachas” são proibidos, mas continuam acontecendo. Deste modo, não precisa ser nenhum gênio para concluir que as questões emocionais, que levam o indivíduo a fazer tais escolhas, são bem mais poderosas que as regras, a proibição ou risco. Ih, agora meu texto foi de vez pras cucuias (acho bonito escrever isso ~cucuias~), por que não sei a que conclusão chegar, nem mesmo explicar o que penso sem que Freud revire na tumba. Não vou explicar o que é Pulsão de Vida e Pulsão de Morte, por que não sou obrigada, além de ser muito empenho, o texto não merece tamanho refinamento. Vamos pular essa parte que talvez explicasse tudo, mas também não adiantaria nada, por que ninguém entenderia mesmo. Pegarei uns termos psicanalíticos emprestados para usá-los sem pudor com a finalidade de glamurizar o texto. E como não sei o que fazer com eles, jogo as questões pra vocês – sou dessas. O que leva alguém a escolher uma profissão como a de piloto de carros de corrida? Prazer? Libido? Energia mal canalizada? Negação da possibilidade de morrer, “comigo não acontece”? É uma forma socialmente aceitável e menos ameaçadora para externalizar a agressividade? É sublimar ou desviar seus desejos para algo aprovado pela sociedade? Ou é puro pessimismo schopenhaueriano disfarçado: se a vida não tem sentido e querer vencer gera sofrimento, o melhor é “curtir adoidado” os intervalos da infelicidade? Ou não viver no comodismo? Raul, por exemplo, preferiu não ficar “esperando a morte chegar”. Qualquer que seja o sentido, o objetivo ou o culpado, para quem morre não faz mais diferença, apesar de ficarmos aqui nos lamentando de dó de quem morreu, por que supostamente perdeu seus parentes, seus amigos, sua juventude, a vida. Perdeu mesmo? Perde quem fica, sofre quem fica e quem ainda pode amargar as consequências de um acidente. É um desperdício de vida, sem dúvida, mas a morte de uma pessoa que escolhe fazer da sua vida uma competição em corridas de carros – que mais PARECE ser corrida pra ver quem chega antes até a dona @RealMorte - não é das coisas que mais me comovem, talvez mais pelo sofrimento de quem fica. E muito daquilo que se vê, se lê e se ouve de lamúrias e questionamentos, é mais uma angústia pelo nosso próprio cagaço – desculpem, mas não existe termo mais perfeito - diante da nossa fragilidade e falta de coragem, do que pela pessoa que “foi desta para melhor”. Até porque, esse morto, não tem nada de vítima, é um ser diferenciado, é autônomo na amplitude total da palavra, decidiu por si, sem se importar com as opiniões que podiam lhe causar medos, não teve piedade das pessoas, não por frieza, mas por independência; assim, não decidiu sua vida em função dos nossos sentimentos. Ficamos com a sua falta, e a falta é nossa, nós é que temos que resolvê-la. Mas saiba que conseguir chegar onde esse ex-vivo chegou, e resolver suas angústias, não é para qualquer um. Pessoas que se arriscam mais, não me parece que buscam a morte, são pessoas raras, livres, fazem o que tem que ser feito, e se a morte entra no caminho, o problema é dela. Comentários |
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