| 01/12/2011 ODVAN* OBS:o blog foi invadido e alguns textos e comentários de leitores foram excluídos, portanto, o texto abaixo é de 03/06/2011)
Após semanas sem qualquer dramalhão no futebol, eis que leio a opinião do atual treinador da seleção brasileira sobre o psicólogo: “o jogador não pode achar que vai deixar o time por causa do psicólogo. A relação tem que ser de muita confiança. Por isso, vamos aguardar um pouco mais”. Segundo a FSP, a comissão técnica incluirá o profissional um ano antes da Copa 2014. Analisarei o todo com base apenas na frase acima e serei totalmente parcial e injusta, se necessário. Concluirei que a ignorância é a mãe dos males que assombram a seleção brasileira. Sendo assim, leitores sem paciência, parem de ler agora. Daqui pra baixo é só encheção de linguiça. Não estou aqui em defesa da categoria, não sou advogada (leia adevogada, no dialeto do futebol) e se fosse, não defenderia a causa daqueles que aceitam serviço de empreitada como se fossem tratar gado. Porém, as pessoas têm uma dificuldade tão grande de compreender as atribuições do psicólogo em uma instituição, que resolvi tomar as dores. Vamos ao estudo da frase: “O jogador não pode achar que vai deixar o time por causa do psicólogo”. E por que não? Já vou cortar esse mal pela raiz: caso um jogador fosse considerado “emocionalmente inapto” para compor a equipe, não sairia “por causa do psicólogo”, mas “por causa” de seus problemas, apontados por um psicólogo contratado para avaliar, intervir e SUGERIR - até mesmo um afastamento. Se a vida te deu limões, você não precisa necessariamente fazer uma limonada, o feirante avisa que parte do limão está podre e recomenda usar só a parte boa do limão ou jogar o limão inteiro, a decisão final é sua. Que insegurança é essa? Que fantasmas são esses que as pessoas carregam da imagem do psicólogo? “A relação precisa ser de muita confiança”, mas como, se parece que o próprio técnico não conhece e não acredita na psicologia. Aliás, um técnico não está acima do bem e do mal, portanto, faz parte da população-alvo como qualquer pessoa da equipe. Ou ele não é parte do grupo? O simples fato de apresentar desculpas esfarrapadas como obstáculos para a contratação de um psicólogo, já demonstra que esse técnico não será um facilitador, portanto, a intervenção já deve começar por aí. Não é fácil para o “dono do pedaço” admitir que outro profissional possa ser tão importante e determinante quanto ele. A isso, podemos dar o nome de ‘pusilanimidade’ ou ‘meda’, nada pior que um líder vacilão. E não me venha com esse papo de “relação de muita confiança”, um trabalho eficaz não é uma relação amigável, com possibilidade de “mimimis”, não envolve gostar ou não gostar, deve ser profissional e só. “Vamos aguardar um pouco mais”. Se um ano é pouco tempo para estabelecer vínculo com uma pessoa, imagine atingir um grupo? O prazo curto e a solução miraculosa que todos buscam são apenas parte do problema enfrentado por psicólogos em qualquer setor. E isso não é culpa apenas da ignorância da comissão técnica, mas também da falta de ética, da ganância e da onipotência de psicólogos que aceitam o serviço como se fossem bombeiros que apagam o fogo sem procurar o foco do incêndio. Como se ambos, contratado e contratante acreditassem no “extreme makeover” de jogadores convertidos em príncipes-encantados-felizes-para-sempre. Depois que tudo dá “errado” – “dar errado” pode ser apenas não ter tido um resultado palpável e mágico – o psicólogo é demitido, o ciclo recomeça quando outro técnico é contratado. Mudam os profissionais de ambos os lados, mas a visão distorcida continua. Enquanto pensarem apenas no desempenho físico e no drible-da-vaca, deixando de lado aquilo que comanda o pé e as atitudes dentro e fora de campo, essa seleção continuará a dar com os burros n’água, ou com os burros na grama. Além disso, técnicos, jogadores, torcedores, dirigentes, jornalistas, pedreiros, carpinteiros, médicos, cozinheiros e o resto do planeta, não conseguem perceber que ser um boçal completo com domínio de bola, já não conquista campeonatos internacionais. Acham normal que jogadores entrem em campo apenas com os pés e esqueçam a cabeça em casa, quando deveriam deixar lá o ego tamanho GG. Como já disse várias vezes, treinamento aprimora a técnica de qualquer um: uma foca também controla a bola com facilidade invejável, nem por isso vira heroína e dona do circo. O jogador pode não ser doente do pé, mas se for ruim da cabeça, pode por tudo a perder. A ignorância e o despreparo emocional, somados, são ingredientes infalíveis para perder campeonatos. Com todo respeito que eu não tenho, mas sem a menor intenção de desvalorizar o ‘dibre’ (eu sei que é drible, eles é que não sabem) alheio, lidar com as próprias emoções é bem mais complexo que aprimorar as habilidades do tiruliruli-tirulirulá. E as pessoas têm dificuldade de enxergar a necessidade, os benefícios e as mudanças que não apresentem resultados quantificáveis como gols e títulos. Psicologia não é um conjunto de técnicas que se apreende com duas palestras e um livro de autoajuda – pragas muito disseminadas entre futebolistas e afins. O trabalho não se resume apenas em remediar sintomas, mostrar soluções demagógicas, rápidas e indolores do tipo causa-efeito, o preço é alto, não em dinheiro apenas, mas em sacrifício, em entrega e desprendimento pessoal. Não tem como objetivo curar, mas sim, a busca pelo conhecimento, como diria o E.T Bilu (quem não conhece procure no youtube). Conhecer possibilita escolhas conscientes, permite saber lidar com dificuldades que muitas vezes não possuem solução imediata e, em alguns “casos crônicos”, qualquer solução. Frequentemente, descontrói para reconstruir, assim como implodir uma ponte condenada, mesmo que em pleno funcionamento. Não, não é simples e é preciso que todos queiram (como naquela piadinha – Quantos psicólogos são necessários para trocar uma lâmpada? – Um só, mas a lâmpada precisa querer), mesmo que alguns funcionários caiam do caminhão-de-mudança, mesmo que o chefe leve um pé-na-bunda, mesmo que a equipe inteira pique-a-mula, o trabalho não pode parar a cada gestão. Jogadores e técnicos carecem, em primeiro lugar, de humildade, em seguida, de conhecimento e depois de ajuda. Tenho curiosidade de saber quem seleciona o psicólogo pra um time e que critérios (que que é isso?) utiliza. Aposto o meu reino que os escolhidos são aqueles do estilo “autoajudantes” (autores de livros de autoajuda que ‘cometem’ palestras mundo afora) ecléticos, que mesclam neurolinguística com astrologia, um pouco de Paulo Coelho, reza braba, unha de morcego, uma pitada de Freud misturado com Skinner e tudo confeitado com muito marketing. Uma mistura que embrulha o estômago e faz o time inteiro “gorfá” as técnicas “aprendidas” na primeira esquina. Para o bem de todos, seria mais saudável ficar sem o ‘psicólico’ nos times de futebol, assim, nenhum dos lados queima ainda mais o filme da “catigoria”. “Apenas que... busquem conhecimento” Bilu, E.T, pois só isso desmistificaria o trabalho do psicólogo e daria suporte para contratar profissionais e não charlatões que se apresentam como milagreiros de última hora. E por que contratar se não querem intervenção? E depois de perder até as e calças e junto com elas a compostura, ainda têm – todos os envolvidos - a audácia de se acharem autossuficientes, quando mal conseguem a participação dos jogadores nos treinos. Antes de mais nada, seria de bom tom qualificar a equipe técnica e dirigentes em assuntos pertinentes como ‘fenômenos’ – coincidência? - psicossociais e as manifestações individuais que influenciam na dinâmica da equipe. Ninguém precisa ser um Freud-cover, mas ao menos ter autocrítica para se colocar como parte do grupo, sem achar que isso o fará menor. O técnico está para lidar com as emoções, tanto quanto o psicólogo está para fazer gols. “Cada um no seu quadrado”, ou cada um no seu cercadinho com grama. PS: Mano, eu não saberia o que fazer com essa bomba na mão, mas ouso dizer do alto da ignorância, saberia selecionar quem as desarma. Siga-me (no twitter) eu lhe mostrarei o caminho, vem comigo. *ODVAN Gomes Silva, nome de batismo do jogador de futebol em homenagem à música “O DIVÔ de Roberto Carlos. Comentários |
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