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  19/04/2011
“CHAMAR DE” E “XINGAR DE”

A polêmica da semana ocorreu no campeonato de vôlei masculino, em que a torcida, em uníssono, direcionou os gritos de "viado" a apenas um jogador adversário.

O vídeo do episódio lembrou situação semelhante, vivida pela estudante Geysi Arruda; foi assustadora a reação das pessoas, sentimentos recalcados e vontades reprimidas eclodiram, contaminando e sugestionando os demais, numa espécie de histeria coletiva. Alguém tem alguma dúvida de que aquilo foi uma reação abjeta, exagerada, excludente, preconceituosa e radical? Ou ainda existem aqueles que acham que a moça fez por merecer por que provocou demais com um vestido curto?

No caso do vôlei, discute-se, entre tantas dúvidas, se a torcida foi homofóbica ou não e se o STJD deveria ter punido com mais rigor ou absolvido.

É ofensa usar termo pejorativo que sugira homossexualidade como forma de agredir homossexual? Uma torcida inteira, durante o jogo inteiro, xingando uma só pessoa de “bicha/viado”, é homofobia? Dá para considerar como homofobia, xingar de “bicha/viado” os adversários, aleatoriamente, sejam eles homo ou hetero?

E qual é a diferença? A diferença não está no significado da palavra pejorativa e da sua representação escrita, mas nos significantes que a palavra carrega, aquilo que é impossível simbolizar - explicação grosseira de leiga para leigos: a palavra é carregada de valores afetivos, sociais e passa a ter marca emocional individual, por isso, depende de quem xinga, de quem é xingado, da situação, da frequência, do grau, da intensidade, do tom, da quantidade, da intenção, depende também de quem recebe e como recebe, etc. Ou seja, as coisas não são tão simples como “xingou é processado ou xingou e não é processado”. As leis são assim, rasas emocionalmente, mas o que nos leva a aplicar a lei não pode ser analisado de forma tão primária, com um peso e uma medida, desconsiderando as inúmeras variáveis emocionais, congênitas e ambientais (social, política, cultural, micro, macro,etc).

Entre homens hetero - pelo jeito, as mulheres são mais bem resolvidas nessa questão - é habitual, embora seja preconceituoso, chamar o amigo de “viado, boiola”. E entre homossexuais também é praxe chamar a colega de “bicha, mona”. Dificilmente, alguém se sente ofendido mesmo que o colega faça piadas disso. Mas a situação muda completamente quando a intenção é a ofensa. A simples diferença entre ‘chamar’ e ‘xingar’, faz cair por terra o argumento de quem compara uma brincadeira a homofobia. Ser chamado pelo apelido de “neguinho” em casa tem uma conotação e ser xingado de “neguinho” (exatamente por que a palavra possui o dinamismo de se transformar) por pessoas que estão do outro lado do arame farpado, tem um sentido completamente diferente.

Usar humor, piadas e desabafo de torcida para camuflar preconceitos é comum. Infelizmente, já banalizamos, achamos normal rir de gente sendo humilhada como fazem muitos programas de TV atualmente. E eu não sei qual é a solução para isso, “a medida da maldade”, até porque, se o mundo não pode ser dominado pelos caga-regra numa chatice politicamente correta, ao mesmo tempo não podemos deixar de desmascarar preconceitos que se escondem por trás da peneira do humor.

O que aconteceu no jogo citado foi praticamente um linchamento, ainda que verbal. E tenho quase certeza que, se uma pessoa resolvesse pular as grades, provocaria uma reação coletiva que concretizaria o ato físico.
Tirando todo o exagero em torno do assunto homofobia (o problema é real, mas o tema virou moda), eliminando todo machismo enrustido das opiniões, limpando todos os ranços, o que sobraria?

Li algumas opiniões no twitter, em blogs, etc., contra, a favor e muito pelo contrário e a conclusão a que cheguei, é que todos, TODOS nós, ainda pisamos em ovos quando falamos da homossexualidade. Ninguém ainda domina totalmente o assunto, nem mesmo quem tem filho homossexual. Porque é uma questão muito mal resolvida para quem é heterossexual; e quem é homossexual já resolvido internamente, esbarra na dificuldade social para externar sua condição de forma tranquila, já que também foi educado na mesma cultura. Ninguém sabe explicar direito por que “pode” xingar de viado um hetero e por que “não pode” xingar de viado um homo. Ninguém sabe dizer qual seria a mais justa punição, se caberia à torcida ou ao clube. Ou onde fica precisamente, a linha entre o preconceito e a liberdade de expressão. Só sabemos, mal e porcamente, quando a atitude está num dos extremos, quando é óbvio diferenciar. Aí, subimos no mais alto degrau do conhecimento, da prudência e da justiça para apontar, punir e linchar. Sim, nós, diplomados e intelectualóides, achamos natural destruir alguém verbalmente, usando como arma a sabedoria da “leitura com a bunda pregada na cadeira”, que, dependendo do grau da maldade, mutila do mesmo jeito.

E, se é que podemos dizer que existiu algo positivo nisso tudo, é que as coisas ruins vêm para nos desestabilizar. Entre mortos e feridos que, pelo menos, não se perca a chance de aprender: “o que não mata, fortalece”. O xingamento foi o impulso que Michael precisava. E, discordando ou não do caminho escolhido pela estudante Geysi, ela também não desperdiçou a situação negativa pela qual passou. Sem negar que tenha que haver punição rigorosa, a conclusão é de que a torcida adversária levantou e Michel cortou, assumiu a homossexualidade, enfim, venceu. (é, a frase ficou piegas, mas tá, continuem lendo assim mesmo)

Isso tudo faz parte da nossa condição limitada de ser humano: precisamos continuar o debate porque não sabemos direito para que lado queremos ir, se é o certo evoluir para a igualdade ou para a diferença. Queremos o mesmo respeito para todos, mas que seja personalizado, porque ninguém é gado. “Não é FÁCIO não”. Um assunto só é polêmico porque está mal resolvido para todos nós, tanto para os envolvidos como para os não envolvidos. E não adianta você se achar o diferenciado, o ótimo, porque não é, está patinando do mesmo jeito, como todos nós, se não aqui, lá.

Quando evoluirmos de australopitecos para neanderthais, ou evoluirmos emocionalmente e não apenas tecnologicamente, quem sabe possamos encarar melhor as diferenças, e a prova disso será o dia em que a homossexualidade não for mais o assunto da berlinda.

*desculpem o mau humor, hoje o texto não tem graça nenhuma

**Não só por ser disléxica, sempre conto com alguém p/ corrigir meus textos. A vítima da vez, foi o gentleman @viniciusduarte. Reclamem com ele.

***Dislexia+Deficit de Atenção, exemplo baseado em fatos reais: outro dia, eu entrei numa rotatória, de carro, lógico, e esqueci de sair. Pois é, rodei 3 vezes nela, acho que deu tontura haha, porque em seguida bati o carro. Se você riu, saiba que era um teste para medir o grau do seu preconceito. Contrate um advogado.



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Sou seu fã. A cada texto mais. Depois volto aqui pra tecer opiniões minimamente mais abalizadas sobre minhas impressões a respeito da psicologia de massa e da imbecilidade coletiva.

Mini-Crítico


Marina responde
Hhahahah,tá, monte um fã clube, mas faça uma tatuagem daquelas que a menina fez pro tonto do neymar, no lado de dentro do "beiço". bunito! e me mande uma carta de metro, daquelas enroladas.
aguardo
beeeijo, bregada




Aleluia. Que saudades e que falta faz vc por aqui. Nem li ainda, mas foi só para dizer de minha alegria de por sua volta.Depois farei comentário sôbre o assunto.

Linacir


Marina responde




Não posso concordar, e nunca, de que os fins justificam os meios.
É a primeira vez que leio seu blog, mesmo discordando de algumas posições sua , gostei muito e voltarei sempre.


Maria Aguillar
magu@terra.com.br

Marina responde
obrigada, Maria

eu disse que os fins justificam os meios? Se eu não escrevi isso, mas vc entendeu assim, do mesmo jeito o erro foi meu, por nao saber me expressar.
beeijo e volte sim




Amada, Marina.

Só vou falar sôbre o parágrafoeqm que vc comenta a banalização de humilhações sofridas por pessoas(geralmente mais humildes) em alguns programas de TV.Humilhação ,também passa o torcedor , leal ao seu time, que vai assistir no estádio o seu time jogar. Chova ou faça sol, lá está ele, entregando-se totalmente , de coração e alma. Digo que ele sofre humilhação, pois muitas vezes o seu time faz algum acordo e joga só para cumprir tabela. Ganhar o jogo para que? Vai que depois tenha pela frente um adversário mais forte. Então os jogadores simulam contusões, e assim fica. é o famoso jôgo do faz de contas. Desculpe se fui muito prolixa, mas tem tanta coisa para falar. Deixo por sua conta que é bem mais gabaritada que eu.


Linacir


Marina responde
Linaciu
bregad, mais uma vez e, sim, concordo com tudo q vc disse
beeiejo




Marina
Perfeito o que vc falou sobre a distinçao entre as intenções e a chatice caga-regra, mas você já deve ter visto piadas do tipo na TV inglesa. Assistindo ao programa Top Gear da BBC um dos apresentadores brincou com a preferência do comediante homossexual Allan Carr e tudo virou uma grande piada (efêmera e sem repercussão).Também era comum ver o pessoal do Monty Python brincando com o que se julga hoje como preconceito.







Leo
leonardocandrade@gmail.com

Marina responde




(continuando)
Acredito sinceramente que sentimos a obrigação de mostrar ao mundo que nós brasileiros "não somos animais preconceituosos terceiromundistas", quando na verdade somos preconceituosos e hipócritas demais.

Tenha certeza que no meio daquele pessoal que gritava "bicha, bicha" tinha gente que baixa filme de travesti na internet porque gosta disso, por exemplo. E no meio da galera que defendeu o jogador homossexual havia gente homofóbica e preconceituosa, que interpretou um papel de politicamente correto pra fazer bonito diante da sociedade.


Leo
leonardocandrade@gmail.com

Marina responde




(pra terminar. Desculpe o exagero de linhas).

Nada disso vai acabar com o preconceito. A questão é cultural. Na Inglaterra não ganha recercussão porque eles têm educação, formação para aceitar as diferenças, vem da escola, vem de berço.

Aqui diferença começa na maternidade: rico paga, pobre nasce no corredor do hospital.

E durante toda a nossa vida vamos recebendo e digerindo estereótipos que alimentam preconceitos. Tudo o que é diferente do estereótipo idealizado, vencedor, próspero e bem sucedido é vítima de preconceito.




Marina responde
Oe,Leonarrrrdo

que desculpar o quê, contrate um advogado, vc não podia ter escrito tanto! haha
Que bom q vc gostou, pq eu fiquei bem insegura de postar o texto, mas acho que fiz bem em ter arriscado.
obrigada, por enqto(espero vc nos proximos)
beeeijo




Marina, adorei seu texto, tanto pelo assunto, que é de suma importância nos dias de hoje, quanto pelo seu modo de percepção. Adoro seus textos, eles sempre trazem uma linguagem agradável, e assuntos que nos fazem refletir sobre certas atitudes e conceitos, continue assim. Um abraço.

Kawany Nobre
nkawany@hotmail.com

Marina responde
Cauane (hahahah)
adorei o seu comentário, tonto pelo assunto, qto pelo seu jeito.
bregada e te espero




Oi Marina. Que surpresa agradável ver teu comentário no meu blog, afinal de contas, fiquei fã do texto do video do Sentimentário.

Sou amiga do Caio Mazzilli e tive o prazer de conhecer também a Carol. Em entrevistas com eles no programa que apresento, falaram sobre o teu nome e sobre o teu blog.

Parabéns pelo teu trabalho!

Acabo de descobrir esse espaço e espero me tornar leitora.

Abraçao
www.twitter.com/eediane


Ediane Oliveira
diidis@gmail.com

Marina responde
Edianeee
achei seu blog por acaso e cliquei no link pq vi meu nome. eu é que agradeço
beeeijo




Técnicamente, considerando a questão de gênero, os desportos de grande apelo de público são todos homossexuais, quero dizer:
São atividades praticadas entre pessoas em um cercado, sendo todas pertecentes ao mesmo sexo e, frequentemente, suadas e semi-vestidas.
E, um homem só pode chamar o outro de, por exemplo, "VEADO", se o conhecer muito bem.
Qualquer Prôto-Neanderthal Pós-Moderno, sabe disso até por que, nunca devemos insultar um estranho... ;)


Steagall-Condé
thesign@sercomtel.com.br

Marina responde




Simplesmente, adorei seu texto. Parabéns!

Keli C. Minatel
keliminatel@hotmail.com

Marina responde
Keli,
muito obrigada, voltarei a atualizar o blog em breve, apareça
um abraço




Marina
Que bom ver que tudo voltou ao normal por aqui
E que ruim constatar que ainda estamos longe de vencer preconceitos.
Texto ótimo,e voltarei sempre conforme prometido!
beeeijo


Hiro
eduhm@yahoo.com.br

Marina responde
Ô Riru
esse post é velho, meu blog foi invadido de novo. retiraram uns posts... estou corrigindo. afffeee
brigada por vir
beeeijo




 

... 42 anos de mau humor
e completo desconhecimento
teórico-prático em futebol.
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