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27/08/2010
O DIA EM QUE O FUTEBOL BRASILEIRO MUDOU
É para elogiar?

Outro dia, num esforço de transformar uma entrevista coletiva cheia de ‘expectativa forjada’ – a surpresa não era mais surpresa – numa cerimônia pomposa, reuniram a imprensa para ouvir do jogador, conhecido como um dos ‘meninos da Vila’, o que todos já sabiam: permanecerá no Brasil e no clube atual. Assim, do alto dos seus 18 anos, num ensaiado discurso de “Ser Superior”, nos deu a oportunidade de tê-lo no país por mais um tempo. Oh! Quanta benevolência! Eu ainda não sei o que mudou na minha vida, mas registro aqui “o meu muito obrigada” preventivo. As frases “só dinheiro não trás felicidade” e “posso servir de exemplo”, ditas pelo jogador, foram das mais originais que ouvi nos últimos tempos, vou anotar na capa do meu diário.

Muita astúcia do Presidente do time em “questan” (questão, se não for do ramo), tentar nos convencer que o ‘acontecimento’ seja um marco histórico, tal qual o “fico” de Dom Pedro I, a descoberta da penicilina ou a invenção do avião. Até entendo pessoas querendo pegar carona no talento do rapaz e talvez por isso, o perspicaz cartola tenha embutido discretamente no discurso, como sua, a autoria da “grande mudança” no futebol brasileiro.

O que querem dizer com “grande mudança”? Normalmente, meninos que sabem dominar uma bola – que é um brinquedo -, saem muito jovens do país em troca de muita grana, mas o jogador supracitado será exceção, por não aceitar a proposta do clube europeu, permanecendo no time do coração por mais cinco anos. Mas, peraí, por mais cinco anos? Têm certeza que vai ficar mesmo os cinco anos? Tanto faz o que está escrito na cláusula, papel e caneta aceitam tudo. No futebol, contrato existe para ser quebrado, tanto é assim, que a multa rescisória astronômica é escrita em neon, caixa alta e é um dos principais pontos de qualquer acordo.

De fato, conseguir “segurar” o atleta aqui é um grande feito, não pode ser desprezado, mas o rapazote não ficou por aqui em troca de amor, como querem demonstrar. Manter um jogador que ameaça sair a qualquer momento, não significa necessariamente que os meios utilizados sejam saudáveis para sua formação. Cadê a diferença?

“Construímos uma possibilidade diferente. Não aceitamos mais a idéia de um país subdesenvolvido sempre à mercê dos poderosos clubes europeus", disse o Presidente do clube. Entendi, diferente dos outros times brasileiros, seu clube ofereceu tanto dinheiro quanto foi necessário, assim como os europeus o fazem. O salário no papel é o mesmo, mas a promessa de ganho mensal equipara-se ao que foi oferecido pelo clube europeu. Seria essa a diferença?

Mas, “nunca antes nesse país”, um clube ofereceu um projeto de carreira ao jogador. Nossa, que originalidade! Colocar no papel outras formas de ganhar dinheiro, agora virou Projeto de Carreira. O que há de inédito nisso? Como diria Nélson Rubens, “ok, ok, eu aumento, mas não invento”. E ainda não encontrei diferença.

Apenas comprar os meninos - é duro encarar a verdade das palavras, mas eu não preciso dissimular usando termos como Direitos Federativos, Direitos Econômicos – ou, para ficar mais elegante, apenas comercializar pessoas no valor do mercado externo, não caracteriza mudança e sim uma pobre imitação ou uma imitação de pobre. Isso me lembra aquelas mudanças na metodologia de ensino nas escolas, quando o bonito era copiar ao pé-da-letra as técnicas pedagógicas mirabolantes dos países chiques, e dane-se a nossa realidade tupiniquim.

Nunca foi novidade, nós, brasileiros não perdemos a oportunidade de comer mortadela - no dialeto do futebol, mortandela - e arrotar caviar. Mas não “estamos podendo”- do dialeto do telemarketing - financeira, política, administrativa ou culturalmente competir ou nos igualar aos países que “podem” investir fortunas no futebol, estou dizendo Futebol, e não Esporte, aquilo que um dia o futebol já foi. Em esporte, todos têm a obrigação de investir. Desculpe a sinceridade, mas o futebol hoje é um festival de futilidades para alimentar egos tamanho GG.

E assim segue o futebol profissional, tratando os jogadores como uma equipe onde todos são valorizados do mesmo modo e “eu finjo que acredito, você finge que não entendeu e os demais jogadores são obrigados a fingir que são tratados igualmente”.

Como eu gosto de explicar a explicação, vou insistir: se todos ocupam cargos de mesmo nível hierárquico e juntos atingem a meta, um funcionário – o que põe a cereja no bolo – que receba o salário muito acima dos demais, não estaria expropriando o valor do trabalho dos demais e revertendo a energia, o empenho, o esforço de todos em lucro apenas para si?

Não existe endereço certo para estragar meninos, podemos estragar por aqui mesmo, enchendo suas bolas.

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15/08/2010
O MANO E OS MANO
Não sou do tipo que nutre grandes expectativas com a Seleção brasileira, mas pensei que desta vez a coisa mudaria pelo menos um pouquinho, pois o atual comandante é “diferenciado” - os caras do futebol adoram dizer “é um jogador diferenciado, é um comentarista diferenciado, um estádio diferenciado, um gramado diferenciado”, até parece que não sabem que a palavra também pode ser usada para o mal, exemplo, “o corte de cabelo do Neymar se diferencia dos bonitos”, e a usam apenas como elogio. O atual “professor brother” – sempre diga “professor”, é démodé dizer “técnico”– é assertivo, foge do senso comum nas entrevistas, mesmo que as perguntas sejam as mais idiotas possíveis, não se coloca na defensiva, não veste a carapuça, não é agressivo, seu vocabulário ultrapassa as 20 palavras do dialeto do futebol, etc e, todas essas características de Lorde inglês me fizeram acreditar que tudo seria “diferenciado”. Mas, o que mudou além dos modelitos, que nos matavam de vergonha, e do modus operandi do ex-professor? Só por que o comandante atual convocou as crianças que a torcida tanto queria e ganhou um amistoso, vocês acham que a água virou vinho? Não passou da hora de uma transformação mais profunda da cultura desgastada e falida da Seleção - se é que podemos chamar esse ranço de ignorância grupal de cultura - para que esse vinho não seja vinagre?

Como era de se esperar, a reação coletiva foi a seguinte: torcedores se sentiram vingados com a atual convocação, chegaram ao êxtase com o gol de um dos garotos. E no maior estilo “Viu, viu, viu? Eu não te disse? Tá vendo? Eu falei!”, surtaram de felicidade ao vencerem os EUA. Me desculpem o menosprezo, mas a Seleção dos EUA não é praticamente um Ibis das Seleções?

“A Seleção venceu o amistoso contra os EUA, jogou um futebol bonito e cadenciado, futebol arte”, dizem os torcedores afoitos. Bem, se eu fosse vocês, não colocaria a carroça na frente dos jegues, até por que, vencer um jogo “amistoso contra” - que contrassenso, ser contra não tem nada de amistoso - um país que só sabe jogar basquete não está entre as 800 mil coisas mais difíceis do mundo. Jogar cadenciado, eu nem sei o que significa, pra mim, isso é coisa de escola de samba. Já, arte com a bola, até a foca do circo é capaz, com uma diferença: a foca não quebra a perna do adversário só por que tomou um xapéu - eu sei que é com ch, eles é que não sabem. Quero ver quando for pra valer, o sangue ferver e as criançolas inexperientes com baixa tolerância à frustração tiverem que usar o cérebro. Cérebro? O que é isso, não era çélebro?

E de novo diriam vocês, “mas quem não foi adolescente? Todos nós fizemos molecagens. Estão sendo muito exigentes com os meninos”. Jogadores antigos foram adolescentes, mas possuíam outros valores, não humilhavam as pessoas, convertendo seu salário em ração de cachorro para comparar ao ganho mensal entre jogador e torcedor, aliás, não precisa ser gênio para saber quem paga o salário do jogador. Jogadores adolescentes de antigamente também não usavam topete, nem tinham o topete de perguntar se o jornalista é surdo, por ter insistido no assunto do qual foi orientado a fugir. Ser adolescente brincalhão é diferente de ser ignorante e intolerante.

E dizem que o técnico anterior não foi inteligente, não usou todo potencial do futebol brasileiro por teimosia, nem sei se concordo, por que não entendo de tática de futebol, mas sei que usou da mesma teimosia para peitar, sozinho, a poderosa emissora de TV. Talvez tenha sido o seu único legado, que foi enterrado num só dia, pelo atual “professor”, numa overdose de entrevistas exclusivas para a poderosa, a maior, a bambambam, a master emissora de TV dona da verdade absoluta. Ah, mas o que é que tem demais, né? O que importa é ganhar o jogo.

Entrevistas eu até entendo, acho que fazem parte de um contrato, esquisito, mas contrato é contrato. Já, engolir isso aqui não dá: jogadores, incluindo os da formação anterior, se sujeitando a entregar uma camisa personalizada da seleção para o jornalista, “por acaso”, da emissora supracitada. O que os motiva a pagar pau para desafeto do ex-técnico? Isso significa bem mais que apenas cumprir ordens superiores, é um misto de falta de ética, oportunismo e trairagem. Não é a isso que dão o nome de “cuspir no prato que comeu”? Ou será mera ingenuidade de “Maria vai com as outras”? É nisso que dá a inexperiência, se acharem ‘os espertalhões’, e assim, assumem uma função que não lhes cabe e tão pouco sabemos se o “pedido de desculpas” é justo e indispensável. Se não concordavam com as intrigas do ex-treinador com o jornalista ou emissora de TV, por que não se pronunciaram na época?

Infelizmente, esses meninos não me surpreendem. Mas, o que decepciona é um começo tão amarelado do atual técnico. Aonde foram parar sua inteligência, sua postura e seu pulso firme? Torço para que esteja aguardando outra oportunidade de mostrar a que veio, por que uma já foi. Eu também o achava “diferenciado” dos medíocres, será que me enganei?

No Brasil, futebol melhorar, não é tão bom assim, tudo fica coberto pela alegria que imbeciliza. E quando o futebol de um guri brasileiro melhora, ele piora. Me desculpem as Ferrari – ou será inveja minha? -, mas segundo os dados científicos e confiáveis levantados pelo Instituto Data Censo Mulher & Futebol, a imbecilidade está diretamente ligada à quantidade de Ferraris na garagem de um jogador de futebol, e é inversamente proporcional à quantidade de livros na estante.

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