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11/03/2010
SAINDO DO ARMÁRIO Houve um tempo em que era pecado capital, um narrador, comentarista ou jornalista, assumir publicamente seu time do coração. Tudo isso, por acreditarem numa imagem de neutralidade. Aos poucos, o mundo foi percebendo o quanto isso era uma grande hipocrisia, já que o torcedor sai a todo momento de dentro da capa do profissional imparcial. Como aquele cara que se esconde “dentro do armário” quando todo mundo está careca de saber “em que time ele joga”. Hoje virou moda ex-jogador, ex-árbitro, ex-técnico, ex-bailarino, ex-patinador, enfim, perdeu o emprego, aposentou-se, vira comentarista. E o discurso é o mesmo, assume o time que torce, mas “com muita ética e respeito em suas explanações geniais”. Eu não sou contra isso, acho viável, mas no mundo neanderthal, é mais fácil achar uma dúzia de agulhas no palheiro do que encontrar o “elemento” que tenha a postura de um Lorde. O comentarista-torcedor é influenciado pela paixão e não consegue conter os impulsos de puxar a brasa para sua sardinha. Juram por deus que são imparciais, tentando abafar a qualquer custo aquele sentimento passional incorrigível e indomável. E o telespectador-torcedor não está preocupado em administrar com elegância seus sentimentos mesquinhos para com o comentarista-torcedor que tece críticas destrutivas ao time rival. O torcedor passa então, a sentir ódio mortal e nutre para todo o sempre a mágoa por aquele comentarista, por aquele canal, por aquele dia, por aquele lado do sofá, por aquela roupa, aquela cueca que era “da sorte”, etc. Enfim, é um ser tão racional quanto um rinoceronte raivoso. Não teria problema algum fazer comentários apaixonados, desde que o profissional fosse contratado para isso. As emissoras contratam ex-jogadores e acham que, colocando um terno, eles se transformam automaticamente em pessoas de fino trato com diploma de jornalista. Ditados populares são sempre úteis para quem não consegue se expressar, como eu: “O hábito não faz o monge”. Ética e bons modos não são transmissíveis, não pega com o contato, nem com a convivência. Por outro lado, frieza nos comentários não é apenas profissionalismo, também é uma questão de ter sangue de barata correndo nas veias. Existe uma diferença grande entre ser imparcial e ficar em cima do muro. Chega de gente “neutra” ou querendo se fazer de. Por que as TVs não contratam torcedores assumidos para criticarem e defenderem o próprio time? Não como convidados que são amordaçados depois de respondem a uma ou duas perguntas. Tudo bem que precisariam de um domador de leões para mediar o programa, mas tenho convicção de que ninguém gosta de ouvir críticas a seu time, que venham de torcedor rival travestido de comentarista “neutro”. Ou alguém acha que o corno-manso e o corno não domesticado, ficam satisfeitos de ouvir opinião do Ricardão sobre a performance da esposa, mesmo que ele jure profissionalismo e imparcialidade? Nada muda minha opinião, esta sim científica, de que a troca de indelicadezas da semana, entre comentarista ex-jogador e “quase ex-goleiro” estavam completamente baseadas na paixão de torcedor de times rivais. E o que há de errado nisso? Apenas o fato de não assumirem. Contudo, admiro pessoas que não se baseiam no medo e no rabo preso para falarem o que pensam publicamente, independentemente de ética e educação ou de estarem certos ou errados. Não sei o quanto é vantajoso para os envolvidos, mas para quem está de fora, é o espetáculo que se espera. Acho saudável que comentarista, jogador, jornalista, narrador, pais, filhos, espíritos, santos torçam, assumam, saiam do armário e deixem claro em qual time jogam – sim, em todos os sentidos.
03/03/2010
PERFÍDIA Durante a transmissão de Chelsea e Manchester City, em que atuavam, em times rivais, jogadores envolvidos no escândalo de traição, telespectadores reclamaram dos comentaristas, que deveriam falar de futebol e não de traição amorosa, enfim, aquele velho discurso, “separar o pessoal do profissional”. Se há uma coisa que eu acho tonta, é dizer “vida pessoal e vida profissional”: não levar problemas profissionais pra casa ou vice-versa. Eu queria saber como é que se faz essa mágica. Só tendo dupla-personalidade Ruth-Raquel. Pra mim, aquele que se diz profissional e não leva problemas do escritório pra casa é o típico funcionário pouco envolvido com a empresa, não “veste a camisa”. E, apontem uma pessoa fria a ponto de não se abalar com os problemas familiares, continuando até o fim do ano com a fotinho na parede da empresa, o “funcionário-padrão”. Como não falar do escândalo durante a transmissão do jogo, se tudo aconteceu praticamente sobre o gramado? Os envolvidos se conheceram a partir do futebol; o jogador pérfido, além de perder a vergonha, perdeu a faixa de capitão; o jogador infortunado - condenado a usar o enfeite na cabeça pra sempre - talvez não jogue mais na Seleção; as torcidas também se manifestaram, escolhendo mocinho e bandido do drama, como em qualquer reality show. O futebol imita a vida ou o contrário? Eles levaram a sério a rivalidade dentro dos campos e revolveram estender o “bafon” para fora do gramado. Bonito, bonito. Como fariam os comentaristas? “O jogador perdeu a faixa de capitão por que piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...”, sem dizer ao público o motivo? Não é uma questão de invadir a privacidade, ao contrário, a privacidade invadiu o gramado. Usufruir da fama tem seu preço, quem quer privacidade total não deve sair de casa, muito menos ser famoso. E o torcedor purista que assista futebol no vídeo-game. Bem, torcedores deveriam estar acostumados com chifres, sempre são traídos pelo time ou pelo craque que, além de não vestir a camisa, negocia com o rival na calada da noite; guardadas as proporções, é uma infidelidade, não sei se mais leve ou apenas banalizada. Comparação exagerada, é apenas profissionalismo! Todo mundo tem o direito de buscar seu lugar ao sol. Todo mundo quer enriquecer. E pra quê? Pra comprar carrão, apartamentão e pra quê? Para ganhar poder e pra quê? Pra conquistar. Quem? A mulher, ou um parceiro, dependendo do gosto. “Sozinho, um homem não é nada. Nem corno”. Sem dúvida, somos o que há de mais importante no planeta, quiçá no universo. E o que resta ao desditoso jogador, depois do leite derramado, é apenas saber reagir ao chifre – e ele não soube, diga-se. Como? Assumir, fingir-se de morto, pular do prédio (lembra aquela bonita frase “você ganhou um par de chifres e não de asas”), morrer, matar, nunca mais sair de casa, tomar baygon, dar o troco, ou passar por cima de tudo, mantendo ou não o relacionamento com o ser ignóbil e fazer a linha corno-manso. Embora a macheza dos leitores não admita, a última alternativa é a mais sensata. O corno-manso, é o ser mais bem-resolvido da face da terra, é superior, não se abala, sequer muda a expressão, não muda nada em sua vida em função do erro alheio. Não responde à situação como se fosse culpado, “pegando o boné” morrendo de vergonha. Ou pior, fazendo escândalo e se vingando como quem pudesse exigir comportamento e personalidade - que ele idealizava - dos dois seres ignóbeis, mulher e o “muy amigo”. Se eu fosse conselheira do jogador, diria para não se comportar feito um “touro indomável” ferido; sair da seleção é jogar contra si próprio. Não cumprimentar o traíra demonstra que está abalado até as entranhas. A única maneira de não cumprimentar o ser execrável saindo por cima da carne-seca, é estender a mão dizendo “toca aqui”, seguido de um letal “deixa que eu toco sozinho” fingindo que toca um violão, enquanto o “Judas” fica com a mão no ar. É um verdadeiro golpe ninja-mortal. Ninguém deve sucumbir ao chifre.
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