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24/12/2011
RIQUEZA X POBREZA O tema é o jogo Barcelona x Santos. Calma gente, estou falando de riqueza de espírito contra a pobreza de espírito. Já esgotaram o assunto no twitter, no facebook, nas ruas, na TV, nas filas de supermercados e nos playgounds assim: foi uma derrota vergonhosa, o modelo do futebol brasileiro está ultrapassado, o craque da Vila aprendeu uma lição, foi uma aula de futebol com o Barcelona, o técnico não devia ter dito isso e aquilo, etc. E os defensores do time que tomou o baile, improvisaram desculpas esfarrapadas, pois foram pegos com as calças na mão, já que a soberba do futebol-arte não deixou que o time e torcedores colocassem os pés no chão, acreditando - no mínimo - que jogariam de igual pra igual com o melhor time do mundo. Assim, apaixonados, torcedores sacaram da manga velhos clichês como “o Pelé foi, o Pelé é, o Pelé será, Pelé..” (muito usado nos momentos de glória e desgraça do time) misturados àquela velha ladainha de quem não sabe perder... “ao menos o nosso time é o segundo melhor do mundo”, “o nosso menino da Vila é um dos poucos atletas que escolheu ficar no país”, preferem acreditar que foi por amor, eu prefiro acreditar em duendes. E por aí foram ladeira abaixo entre ataques e defesas, aliás, a defesa que faltou em campo estava toda no twitter. No fim das contas, a reação foi a mesma de sempre: 190 milhões de técnicos com pós-doutorado em “como não perder nunca” e “eu sabia”, ditos de formas variadas. E não sobrou nada que eu pudesse dizer a não ser repetição. Sendo assim, vou deixar o texto do Flavio Gomes como referência, mas esclareço: pensei em tudo aquilo antes dele, que por não ser disléxico como eu, escreveu mais rápido, só isso. Mas para não perder o costume de contrariar quem entende, procurei e encontrei um parágrafo do qual discordo em parte, que se refere ao menino da Vila, no qual Flávio Gomes diz “O futebol brasileiro hoje levou uma sova no Japão. E o único que percebeu isso, pelo que pude ler e ouvir por aí, foi o topetudo Neymar. 'Hoje a gente aprendeu a jogar futebol', ele disse. Não sei se exatamente com essas palavras. Mas falou em 'aula', em 'lição'. Sacou, acredito, que nada mais será como antes. Ao menos para ele.” blogdoflaviogomes . Melhor que a Mãe Dinah que apenas adivinha o futuro, sei analisar a personalidade pelo penteado, a vaidade do menino está projetada no topete, e isso não permite que ele entenda a derrota como lição mais profunda, mas apenas como uma aula de técnicas de futebol. Não me apedrejem, mas eu apostaria o meu carrinho de pipoca e o meu cavalinho upa-upa do gugu que o discurso já estava pronto. Assessoria existe pra quê? Os caras são competentes em moldar meninos ao gosto do freguês. Imaginem que iam deixar o rapaz falar, ganhando ou perdendo, qualquer asneira - como já fez antes - que repercutisse mundialmente. É muita grana em jogo pra deixar nas mãos de um ser que usa todo seu tempo inútil para fazer chapinha, aloirar a crina, arrotar asneiras e BOLAR um modelo de gorro onde seu topete fique aparecendo. Como deixar o destino de tanto cabide de emprego nas mãos de quem não tem vontade de tirar título de eleitor e não sabe sequer quem é candidato a Presidente do seu país? Desculpem, mas o rapaz não me convenceu com esse discurso ensaiado. Sim, algumas pessoas aprendem, outras são apenas treináveis. E a diferença entre o Barcelona e os times brasileiros não está num reles jogo de futebol, lá, “valor” não significa apenas preço, e preço não está acima de hombridade e cidadania. E como eu me cansei de escrever a mesma coisa desde 2006 sobre o futebol brasileiro ultrapassado que não investe nas pessoas, apenas na técnica, se é que investem nisso também, resolvi pegar uns textos antigos que ~ORNAM~ com o momento tanto da Seleção, quanto dos outros times brasileiros, que andam pelo mesmo trilho: OdiaEmQueoFutebolBrasileiroMudou ParaGanharACopa Odvan*
06/12/2011
“SÓCRATE” “Mãe, devia ser ‘SÓCRATE’, por que ele é um só” - Singular né, filho? E ele é único mesmo. E foi assim que ao receber a notícia, ainda tentando disfarçar o meu choro melodramático, alguém chegou ao meu lado de mansinho e, olhando para a imagem do tal “Sócrate” na tela, concluiu numa só frase ingenuamente verdadeira, o que eu vou escrever nuns 10 mil caracteres. E do mesmo modo que entrou, saiu do ambiente, sem qualquer sinal de catastrofismo pelo acontecido, nem mesmo pelo meu estado calamitoso, o que cortou meu choro convulsivo e patético e me colocou de volta ao mundo real de reles admiradora de quinta categoria que nem está à altura de poder sofrer como podem os corinthianos - que profissionalizaram o sentimento, saber sofrer é um requisito para ser corinthiano, sabem viver, sabem morrer e sabem fazer sofrer. Assim, comecei o longo exercício de escrever e apagar milhões de vezes aquelas linhas trágicas escritas no calor das emoções. Verdadeiras, porém mexicanas. Aqueles que continuarem lendo, notarão que eu desisti de apagar, preparem-se para o “carrossel de emoções”, diria Silvio Santos. A mídia fez o seu trabalho ao dar o tom teatral de sempre, mas o fato é que Sócrates, ou melhor, Sócrate, o cara singular, autêntico, questionador, humilde e carismático, seduz e contamina até os anticorinthianos causando-lhes sentimentos contraditórios inconfessáveis para qualquer torcedor adversário. E aos corinthianos, deixou uma situação corinthianamente sofrida de perder e ganhar ao mesmo tempo. Tudo isso, num só capítulo. Idiossincrático até pra morrer. Todo mundo morre de morte morrida ou morte matada, só ele de morte corinthiana, e esta não é para amadores. A mandinga corinthiana é tão forte que induz até os mais céticos a acreditarem que o Brasileiro estava ~predestinado~ ao gran finale. Morrer no mesmo dia da conquista do título do Campeonato Brasileiro... “Brasileiro”!?? Coincidência, destino, energia cósmica? Mas ao Magrão – todo fã (eu) se acha íntimo do ídolo para chamá-lo pelo apelido de familia – não restou o poder de se defender da espetacularização do seu derradeiro “causo”, ufanismo não combina com quem é desprovido de vaidades. E pessoas (como eu), que nunca se interessaram pelo futebol, aproveitam o momento para escrever dos sentimentos que ninguém precisa saber. Que coisa feia. Desculpem se ainda não me livrei do estilo sentimentalóide como o do texto “Sócrates, o corinthiano doente”, mas não há como escapar de um enredo a la @JornalismoWando, quando se trata de sofrimento corinthiano. E assim, passei o resto da amanhã aos prantos e, por não ter o direito de sofrer corinthianamente, muito menos por alguém com quem não tinha intimidade, escolhi chorar egoisticamente pelos meus filhos que perdem por viver num mundo cada vez mais idiota, sem substitutos à altura dos que estão indo. Depois reagi com o mais dramático pensamento infantil (aqueles momentos em que não temos outra saída senão querer voltar pro colo da mãe que sempre resolvia tudo), como se ele pudesse ouvir post-morten, conversei sozinha: Sócrate, eu nem sou corinthiana e por que você está fazendo isso comigo? Não precisava ir conversar pessoalmente com São Jorge antes jogo, você mesmo diz que ganhar não traz aprendizado algum. Hoje, você aumentou a torcida e diminuiu o anticorinthianismo, mas a nação corinthiana preferia você. Se eu soubesse que você não ia dar conta, eu teria começado a crer em Deus, patuá, mandinga, Buda e Iemanjá. E aquilo que eu disse (no outro texto) que não faria, eu faria sim, iria até Aparecida do Norte pagando mico com a bandeira nas costas, vestiria até a cueca que da sorte, aquelas que vocês nem lavam pra usar nas finais - e acham que dá certo. Sócrate, seu feio, volta aqui, você não pode ir embora assim, você ainda não terminou o que você começou a fazer, você ainda ia morar em Cuba, e esses meninos, jogadores de hoje, quem vai mostrar que não se deve ficar em cima do muro e que é possível viver sem ostentação e presunção? Ainda resta alguém no futebol? A nação corinthiana continua, mas o Corínthians que sintonizava com o seu jeito contestador, não é mais o mesmo, nenhum time é, nenhum jogador, nenhum dirigente, nem a chuteira, nem a bola e até gramado mudou. Sócrate, foi por tão pouco, e agora a minha promessa segue sem destino, quem dera eu acreditasse em coisinhas fofas e invisíveis, aí eu teria a obrigação de ficar feliz, pois você estaria no céu com todos aqueles que já perdemos. Ah, como seria bom. E Sócrate, naquele meu sonho, você ainda ia conhecer meus filhos, você ainda ia num jogo comigo, você ainda ia me dar um abraço e eu ainda ia ser corinthiana. Tá, agora chega, já deu de lero-lero cheio de sentimentalismos baratos sem sangue corinthiano. Sócrate não gosta dessas frescuras, assim como não faz seu tipo querer estádio com seu nome; concordo, mas só um estádio teria grandeza quase proporcional à sua. Então, não tem que achar ruim não, homenagem a gente não escolhe, aceita.
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